Cursinho de Literatura

Finados

Publicado por: soninharivello em: 2011/11/02

Eram As Minas Gerais ainda e eu, criança,  acompanhava minha avó até a cidade vizinha de Vassouras, no estado do Rio. Íamos de trem, carregadas de flores, caprichosamente mandadas pelos parentes  de Barbacena, que tinham um roseiral. Eles abasteciam a família, nos casórios e nas mortes.

Nunca tive medo de cemitério, até me divertia, pois era um dia diferente. Mortos só meus bisavós, era ainda uma criança, a vida era mais presente. Em Vassouras, cidade imperial, havia túmulos lindos, alguns soturnos, abissais mesmo, pois descíamos uma escada, e numa espécie de porão estavam enterrados os religiosos ( minha avó era muito católica).

Com a mudança na adolescência pra Santa Catarina, íamos ao cemitério no dia de Finados, mas não tínhamos parentes, só mais tarde, em 1974, veio a ser enterrada ali a minha avó querida, vó Stella, a que me levava à morada dos mortos, para não repetir a palavra toda hora.

Antes de ela estar enterrada ali, ia com minha amiga Valquíria Silvestre ao túmulo do pai dela. Ficava pasma com o chiquê do cemitério de Criciúma. Muitas capelas  competindo entre si. E o dia era mais festivo também.

Entretanto nunca curti cemitério. Não tinha medo, mas nada me ligava a ele. Gosto de igrejas, por exemplo, grutas, capelas. Sempre estranhava quem tinha o costume de ir, fora das datas de praxe.

Até que minha mãe morreu, e morreu nova, de repente, ao fazer uma angioplastia, vocês sabem.

Senti muito e uma das coisas que me me ajudou foi visitar seu túmulo. Pra começar , fica num lugar super acessível ( é o do Itacorubi), bem no começo, praticamente estacionava o carro em frente.

O primeiro clic foi poder conversar com ela, sim, estava meio agoniada, minha mãe sempre foi o meu guru, agora quem iria me ensinar as coisas e tudo mais?

Estava na primeira semana e tinha que dar conta das coisas dela, as quais fui guardando, para um depois… com calma.

Havia, porém, o quarto dela, o mesmo dos meus bisavós, lindíssimo, penteadeira, espelhos franceses, show. Era herança minha, desde sempre. O problema é que não cabia no meu apê, e aquilo ficou me agoniando, pois a mãe era danada, quase morreu quando eu falei que iria pintá-lo de branco um dia. ( nunca acontecerá, podem ter certeza).

Pois bem, fui ao cemitério e danei a conversar com ela, expondo os motivos, pedindo ideias e chegando à conclusão de  que os móveis ficariam na tia Sônia, até eu ter uma casa grandona. E assim foi, daquele dia em diante, o cemitério virou meu consultório terapêutico, todo sábado, pelas quatro da tarde,  eu levava uma linda flor e batia aquele papo com a dona Maristil! Minha mãe amada!

Foram pelo menos uns dois anos assim, aos poucos fui parando de ir. Hoje vou no dia 22/3, quando ela faleceu, no dia de finados e dia 2/12, aniversário dela. Encho o túmulo, cobrindo-o mesmo, com crisântemos coloridos.

E a história de avó e neta se perpetua. A Rafaella vai comigo, reza junto, visita os túmulos vizinhos e sempre, sempre mesmo, tira um vasinho de flor da bisa dela e coloca no da vizinha, que está sem flor nenhuma , tadinha, ela comenta.

Mil coisas

Publicado por: soninharivello em: 2011/10/30

Já está ficando repetitivo reclamar da falta de tempo, eu sei. Mais ainda do cansaço do final do ano, aliás do ano inteiro. porém é esse o meu pensamento recorrente, uma absoluta falta de tempo pra mim. Ainda que eu esteja tentando.

Resolvi que só vou fazer academia ( e suas variantes) quando entrar de férias, mais importante ainda, resolvi que ano que vem minha agenda pessoal virá antes da profissional, vale dizer, primeiro o horário da academia, depois o das aulas.

Estou goostando muito desse olhar que estou me dando, devagar, que esse tem sido o ritmo possível, mas é bom me encontrar e ser feliz.

Há um mês resolvi fazer umas massagens modeladoras, ideia da minha filha Carol, que já havia feito lá na Unisul, na Cosmetologia, porque além de legal é mais em conta.

Foi uma piada minha primeira sessão: a professora me indicou fazer corrente russa entre outras modelações.Fui pra “aula” completamente sem saber o que aconteceria comigo. Duas alunas do curso, bem simpáticas me prepararam, amarravam em mim uns cintos, colocaram uns cremes e inseriram nos tais cintos algo com o feitio de um porta-copo.

Até ali tudo bem, estava quase dormindo, o que sempre acontece quando sou forçada a ficar parada e nada depende de mim; foi então que as vi pegarem uns fios… Entrei em pânico e perguntei : dói?

Responderam-me que no limite do suportável.

Sinceramente, não sei o que estava esperando de uma sessão chamada corrente russa, logo eu professora de Literatura que adora dar símbolos a tudo entendi de forma literal a expressão ” corrente”. Sim, achava que eram correntes que massageariam meu corpo. Pode?

Pois é… mas estou amando e pretendo continuar com a batalha. Sei que valerá a pena.

Da arte de ser criança

Publicado por: soninharivello em: 2011/10/12

Não é fácil ser criança, lembro. São lindas, símbolo de esperança, felicidade. Não é fácil ser criança, porém.

Sempre tenho pena delas, todas, das ricas, das pobres, principalmente das crianças como conceito. Generalizando-as.

Se há uma foto de um velho, e ele sofre, me dói, mas me dói mais o sofrimento da criança.

Ela não pode decidir, ela não pode ir, ela não pode.

Esse não poder é triste!

E sempre há um adulto por perto.

 

Diário da reeducação alimentar

Publicado por: soninharivello em: 2011/10/08

Fui à nutricionista no dia 19/7, estava com 86, 9 e ela me passou uma dieta bem legal, reeducação alimentar mesmo. Duas semanas depois voltei e já me sentindo mais magra me pesei e não havia perdido um só grama! imagino a cara que fiquei!

por incrível que pareça, foi bom, pois prestei mais atenção à alimentação que não estava tão correta como eu pensava: sempre uma fatia a mais de qualquer coisa, e vocês sabem, a matemática é sempre exata.

Eis como estou:

Paciente: Sônia Maria Ferreira Rivello

Dados Antropométricos 2011

Parâmetros

19/07

02/08

23/08

20/09

Peso atual (kg)

86,9

86,8

81,6

80,4

Altura (m)

1,53

1,53

1,53

1,53

Circunferência

114 cm

112

110

109

IMC (adequado 20-25)

37,1

37,0

34,8

34,3

Diagnóstico nutricional

Obesid 2

Obesid 2

Obesid 1

Obesid 1

é, devagar MAS sempre!

( sem forças para escrever, elaborar etc etc, palavras presas! )

mundo real

Publicado por: soninharivello em: 2011/10/08

nele, acordo às 5 horas, leio jornal no PC, tomo meu café, saio às 6h35, começo a aula às 7h20.

mundo da imaginação

Publicado por: soninharivello em: 2011/10/08

nele , acordo às 5h e caminho 30 minutos na esteira, depois me arrumo bem bonita e vou de bike dar aulas.

Vovó

Publicado por: soninharivello em: 2011/07/26

Neto e Neta

Neto e neta são netos, no masculino.
Filho e filha são filhos, no masculino.
Pai e mãe são pais, no masculino.
Avô e avó são avós.

Por Arnaldo Antunes.

 

( O melhor lugar no qual me encontro é no papel de vovó. Sou grande, amada,boa gente! Obrigada, Rafaella)

day by day

Publicado por: soninharivello em: 2011/07/22

É incrível, sempre tenho a nítida sensação de que não vou dar conta ,na volta às aulas, depois das férias de julho( elas existindo ou não). Isso já acontece há 27 anos, desde que comecei a trabalhar.

Nas antigas, é porque eu tinha aulas na UFSC, crianças pequenas, outros desafios; agora é um certo medo da saúde: será que dou conta de tudo que acontece no semestre derradeiro?

Sim, pois a segunda metade do ano é mais estressante; senão vejamos: feira de ciências nos dois colégios, olimpíadas no Bomja, mil provas, mil testes, mil redações. E o cursinho dos livros Só devo parar quando o vestibular acabar, claro. Antes dele, porém, intensivão, aulas sábado, simulados etc etc etc.

A volta às aulas do início do ano é diferente: alunos novos, turmas novas, desafios novos. Além do que, temos uma sensação boa de que descansamos mesmo. Férias de julho não, elas  servem para nos dar o gostinho de dormir mais um pouco, ver novela da tarde, escrever no blog, fazer compras na feira, ver O Clone, ou a novela da tarde da vez , ainda que não gostemos dela.

Sabe aquela história de sentir o gosto da bala e alguém tirar…? Pois é: férias de julho!

O lance é seguir a máxima do pessoal do AA: só por hoje não vou…me estressar. Biblicamente,  lembrar que ” a cada dia basta o seu cuidado”; arcadicamente, o tal carpe diem.

E já que estamos falando em trabalho, e o meu é Literatura , chamemos o poeta para acudir:

Só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia-a-dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos…

Amigos

Publicado por: soninharivello em: 2011/07/20

Aos meus amigos


Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…

Vinicius de Moraes

Comida e carência

Publicado por: soninharivello em: 2011/07/19

Eu sempre fui uma criança magra, de ter complexo até. O que me salvava é que tinha perna grossa, bem dito salvava…

Esse papo é para entender um pouco meu processo de engorda, pois hoje fui à nutricionista tentar melhorar a minha relação com a comida, para ter uma alimentação melhor.

Fui magra e  não gostava de comer mesmo, minha mãe batia em mim até; tenho uma imagem gravada na memória  que é a  de um sapato salto agulha em cima da mesa tendo por trás os olhos verdes da minha mãe: COMA!

Ela trabalhava fora o dia inteiro e não aguentava mais meus avós e tios reclamarem que eu não comia, por isso precisou até trocar o horário do serviço para poder me controlar no almoço.

Outra imagem é de ela me obrigando a tomar uma sopa salgadésima, na caneca, a fim de eu poder brincar; quase vomitei, lembro-me.

Outra cena clássica gravada  na minha memória foi de quando a moda era brincar de bambolê, todos na rua tinham, menos eu. Chegou o dia que eu iria ganhar, estava freneticamente a mil , mas só saí para comprar com minha avó depois que comi o bacalhau do almoço.

Teria mil outras lembranças , porém creio que essas ilustram bem que não fui uma criança gordinha, que vivia comendo etc; ilustra bem o fato de que ficou gravado no meu subconsciente de que quem comia tudo ganhava prêmio.

Tomei biotônico Fontoura, Rarical e um cem número de remédios para abrir o apetite, o problema é que milhares de anos depois eles fizeram efeito…

Até os dez anos de idade a inapetência era evidente, trocava a comida por tudo, eu queria era brincar.

A casa era cheia de guloseimas, família grande, de mineiros e grandes cozinheiras, claro que eu gostava das coisas, as comia até, só que eu não era ligada em comida, vê se pode.

Poderia ficar aqui horas falando dos melhores cardápios, das gostosuras, mas o caso era que isso não era o mais importante.

Gostava, sim, de comer mingau de farinha láctea, até hoje minha boca enche d’água ao lembrar, primos moravam comigo e à noite nos era servido o manjar. Esperta eu batia apostas com eles, vamos ver quem acaba primeiro? Eu comia devagar de propósito, só para curtir mais o prato.

Pois bem, essa é a lembrança boa da comida em criança, mas ainda não era compulsão, era gostoso, comida de conforto, mas trocaria por brincar, amarradona, como diz a Stella.

A adolescência foi chegando e então os hábitos mudando um pouco, lembro-me como gostava do almoço de domingo, na frente da Tv, vendo Silvio Santos, Qual é a música. Coca-cola, maionese, frango frito, tutu, arroz branco. Uma delícia, mas ainda a comida não era substitutiva de carências, era comida gostosa e deu.

Ainda continuava detestando tomar café da manhã, mas já adorava comer pastel de banana com guaraná no colégio, mas dinheiro era raro, lanche era de casa.

Foi ali, pelo meio da adolescência, que a coisa meio que foi mudando, morando em Criciúma, longe da mãe, cheia das inseguranças, comecei a achar gostoso comer bolo à tarde e sentir conforto com aquilo. Longe estava eu ainda da compulsão, pois era muito magrinha, de me achar feiosa.

Antes da compulsão vieram maus hábitos: coca-cola, lanchinhos, cachorro-quente, nada de fruta, sucos etc. Magra ainda, não compulsiva ainda.

Pulando mil problemas e blábláblá, veio o casamento e as gravidezes ( eta plural feio) e engordei muito, muito mesmo, 18k na da Stella, 20 na da Mariana, 17k na da Carol, a sorte é que entre elas eu voltava ao meu peso, mas com dietas, com ginástica etc. Lembro-me de que quando cheguei ao hospital para ganhar a Carol, eu estava com 67 k, de nove meses.

Houve tristezas, depressões, carências, mas houve também alegrias e TODAS  regada à comida.

Foi depois dos meus trinta anos ,porém, que a coisa degringolou, junto com a mudança no organismo.

Sei até a data: depois que me formei na UFSC. Havia acabado o meu período de “descanso”, o negócio era só trabalhar e cuidar da vida, vieram também decepções, tristezas íntimas, assuntos meus… E ano após ano fui engordando.

Quando vi, estava com 108 k, antes disso emagrecia, fui a um spa três vezes,antes ainda havia tomado até inibidores de apetite.

Tomei coragem e fui fazer a cirurgia  bariátrica, cheguei a 74k, estava indo bem e veio a depressão em 2005. Durante o surto, não se come, depressão profunda tira toda fome, depois é que veio o problema.

Para me animar, comia pizza nas sextas depois das aulas no Energia, um jantarzinho gostoso etc. E parei de emagrecer, pior, voltei a engordar, claro que não comia e nem como como antes, mas parei de emagrecer. Junto veio uma violenta frustração: ” Meu Deus, nem cirurgia de estômago me dá jeito”.

Graças a Deus não sou determinista, sei que dá pra retomar e o primeiro passo foi dado, escrever esse post, contar da vergonha que sinto de ser desse jeito e tentar me amar um pouco, porque eu mereço e vale a pena ter uma vida melhor.

Desejem-me sorte e força!

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